A última Seleção inesquecível: Telê aparece para resgatar o futebol-arte


A Seleção que encantaria o mundo na Copa de 82 começou a nascer na tarde ensolarada de 9 de dezembro de 1979. Nesse dia, sob o comando de Telê Santana, o Palmeiras goleou o Flamengo por 4 a 1 no Maracanã jogando um futebol de gala. E aquela exibição memorável transformou seu treinador no preferido de todas as torcidas para dirigir o Brasil.



Telê posa para a foto ao lado de Sócrates e Zico - Arquivo/AE
Arquivo/AE
Telê posa para a foto ao lado de Sócrates e Zico
Telê conquistou apoio popular maciço por ter feito um time formado por jogadores jovens e sem grande cartaz mostrar um futebol vistoso e ofensivo. E a vitória sobre o Flamengo foi uma síntese de seus conceitos. O Verdão jogava pelo empate para avançar às semifinais do Campeonato Brasileiro e tinha pela frente um adversário poderoso – com craques como Zico, Júnior, Carpegiani e Cláudio Adão – num estádio lotado, mas foi ousado do primeiro ao último minuto. Saiu na frente com um gol de Jorge Mendonça, levou o empate em pênalti batido por Zico e depois marcou com Carlos Alberto Seixas, Zé Mário e Pedrinho.
A imprensa também se rendeu ao trabalho de Telê. Na tradicional pesquisa de fim de ano feita por O Estado de S. Paulo, em que jornalistas de todo o Brasil elegem os destaques esportivos da temporada, ele recebeu 197 dos 221 votos possíveis na categoria "melhor técnico". Diante desse quadro, quando assumiu a presidência da CBD (que depois passaria a se chamar CBF) em janeiro, Giulite Coutinho não tinha dúvida de que o treinador do Palmeiras era a melhor opção para substituir Cláudio Coutinho no comando da Seleção. E depois de alguns dias de negociação, em 12 de fevereiro o contratou.



Telê estreou dia 2 de abril, num amistoso no Maracanã contra a Seleção Brasileira de Novos. O time principal ganhou por 7 a 1 de uma equipe que tinha jogadores como Mauro Galvão, Biro-Biro, Cristóvão (hoje técnico do Vasco) e o meia Jorginho, um dos destaques do Palmeiras de 79.

A primeira escalação do Brasil com Telê foi a seguinte: Carlos, Nelinho, Amaral, Luizinho e Júnior; Batista, Falcão e Zico; Tarciso, Reinaldo e Joãozinho. No segundo tempo, Cerezo entrou no lugar de Batista e Sócrates no de Falcão.
Depois de uma vitória por 4 a 0 sobre a Seleção Mineira, chegou o primeiro amistoso internacional da nova Seleção. Dia 8 de junho, no Maracanã, o time bateu o México por 2 a 0 com gols de Zé Sérgio e Serginho. Zico e Júnior, machucados, não jogaram. Falcão, vendido para a Roma, também não. Ele só voltaria a vestir a camisa amarela em maio de 82.
Uma semana depois, veio a primeira derrota. E com ela as críticas. O time cometeu muitos erros e perdeu para a União Soviética por 2 a 1 no jogo que comemorava os 30 anos de inauguração do Maracanã (o gol foi de Nunes, centroavante do Flamengo).
No dia seguinte os jornais foram duros com a dupla de zaga (Amaral e Edinho), com Zico (perdeu um pênalti) e com a falta de jogadas pelo lado direito. Surgiram notícias de que alguns jogadores estavam insatisfeitos e que a imprensa do Rio e alguns cartolas da CBF já queriam "fritar" o treinador.
Telê era mineiro, mas conhecia bem o Rio porque jogou muitos anos no Fluminense. E para diminuir a pressão sobre seu trabalho levou a concentração da Seleção para Belo Horizonte. O local escolhido foi a Toca da Raposa, do Cruzeiro.
Nos jogos seguintes o rendimento da equipe não ajudou a arrefecer o volume das críticas. Foram vitórias apertadas e sem brilho sobre Chile, Uruguai e Paraguai, e um empate com a Polônia no Morumbi por 1 a 1.
A primeira grande atuação da Seleção foi na goleada por 6 a 0 sobre o Paraguai no Serra Dourada em amistoso disputado dia 30 de outubro. Zé Sérgio, Tita, Zico (2), Sócrates e Luizinho fizeram os gols, e o time jogou assim: Carlos, Edevaldo, Oscar, Luizinho e Júnior; Batista, Cerezo e Zico; Tita, Sócrates e Zé Sérgio. "A goleada mostrou quem estava com a razão", escreveu o JT, referindo-se ao fato de Telê sempre garantir nas entrevistas que ia acertar o time.
O ano chegou ao fim com uma vitória por 2 a 0 sobre a Suíça em Cuiabá, gols de Sócrates e Zé Sérgio. E sem Zico, machucado. 
Luis Augusto Monaco - Jornal da Tarde
←  Anterior Proxima  → Página inicial